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Safra

Ando sonhando com você entrando por aquela porta,
me pedindo pra ficar em seu abraço dançante, mas então eu acordo e percebo mundos tão distantes com caminhos paralelos, mas intransponíveis. Há muita terra para se arar as sementes precisam ser jogadas ao chão o cal e o adubo Por que já estou sonhando com o fruto? Há muita chuva ainda por cair e 60 dias de sol. Há ainda muita terra pra se arar, mas o tempo foi sensato nos deu o momento certo e nós aproveitamos bem preenchendo cada lacuna daquelas almas rachadas. De repente um sentimento visceral me toma então suspiro Mas eu sei e sinto que estamos na terra certa. Independente da safra uma ou outra, ambas serão boas Porque aqui, aqui a terra é profunda e há espaço para raiz independente da semente que for jogada.
Sara.
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Meu Sal.

Eu sinto um gosto de sal na boca.
Um gosto sempre presente
que me lembra dos ares que já entraram
por essa boca.
Eu sempre busquei uma salvação
idealizava um sentimento profundo
uma conexão
que me libertaria,
mas ela nunca chegou.
Eu uso o sabor doce da vida
para combater o gosto de sal
que trago na boca.
Esse combate está fadado ao fracasso.
Eu tenho uma necessidade de permanência
que criei na tentativa de suprir a falta,
mas foi um erro
que agora me machuca.
Eu tenho um desentendimento profundo
com a minha existência
e questiono meu passado
o acuso
de me fazer feridas intangíveis.
Eu sou minha salvação.
Eu preciso aceitar o sal na minha boca
para que o doce seja seu complemento
e não seu inimigo.
Eu preciso aceitar minha história
para deixar ir
todos os sentimentos
que me amarram ao chão.
Eu consigo ver o caminho.

Sara.


Feito Pipa solta no Verão...

De onde vem todo esse sentimento
que se acumula em mim?
O peso sobre o meu estômago
me diz que um mundo vive aqui.

Sabe todos os versos que deixo escapar?
Eles dizem da enorme insegurança que tenho.
Sabe o silêncio que propus?
Ele fala que preciso escutar
Ainda que meu mundo esteja sedento...

Eu quero escutar o que meu silêncio diz
ainda, mais uma vez, vivo me contradizendo.
E deixo a deriva sentimentos opostos.
Eles te confundem?
Eles me confundem.

De onde vem todo esse sentimento?
De caminhos amigdalares cerebrais?
Uma explicação possível.
De uma pessoa incrível?
Outra explicação possível.

De onde vem meus sentimentos?
Da vida que levo ao vento.
Eu sou pipa solta no verão.
Ando perdida da minha linha
seguindo a trajetória do vento
Essa sensação é boa.
Também sei que não será eterna
Ora dessas eu engarrancho
em um telhado,
fico presa a um poste qualquer
ou sou traçada em pleno ar
por uma linha de outra pipa razante...

Às vezes parece que não voo sozinha...
Às vezes eu olho para o lad…

Em uma Noite fria...

Nada é para mim é tudo sobre os outros. Uma ausência Eu tenho uma vala profunda no peito Que preencho com tudo, Mas que nunca se fecha. Eu tenho uma vala no peito. Nenhum mérito, nenhum sonho Nenhuma conquista preenche o vazio da minha alma. Duas ausências Silenciosamente traçadas Abruptamente feitas. Minha vala tem nomes A quem eu devo respeito. Os anos avançam com o vento E a vala resiste ao tempo. O que será de mim? Porque tantos laços me prendem e fazem de mim Um emaranhado de gente. Vagas ilusões fingem que eu me desfiz Mas logo a dúvida e o medo avançam juntos Para me deter. Escrever regenera a minha alma Acalma os demônios que me habitam. Existe um cais no meu porto, mas ninguém chega lá.

Sara.














Imagem: Anoitecer em Niquelândia, Goiás-Brasil.

Alma espelho.

Uma alma espelho é difícil de ser olhada Logo que a encontramos existe muita felicidade Mas com o passar do tempo Tornar-se difícil Se encarar no outro, mas nós fazemos isso o tempo todo. Nós projetamos no outro quem somos E quem queremos ser. Mas uma alma espelho é difícil de ser olhada.
Você ecoa em mim Eu ecoo em você. E quando olhamos para o desconhecido O medo toma esse espelho.
Meu passado vira o rosto quando me vê. Ele tem vergonha de mim. Mas eu não sinto vergonha dele. Eu o reconheço Eu o acolho Eu o aceito Meu passado faz parte de mim.
É difícil olhar para minha alma espelho Porque eu sei que não a conheço, Mas sinto que reconheço Cada gesto, Cada olhar, Esse apreço. É como olhar para um velho amigo E saber que ele é abrigo.

Sara. Imagem: grafitte Amanda, Instituto das Artes, Universidade de Brasília.

Tempo.

É tudo sobre você e eu.
Um ponto meu de tranquilidade.
Um sorriso de completas verdades
Pessoas marcadas
Encontros traçados
por redes invisíveis.
Nós parecemos uma nuvem suspensa da realidade.
Será que é real?
Você me pergunta.
Não importa.
Eu te respondo.
A realidade é construída
através de perspectivas.
Elas se somam
formam um mosaico
O qual chamamos realidade.
Nós somos reais,
pois somos um pedaço
de algo que se constrói
dia a dia, lado a lado*
À incerteza da vida
nós preenchemos com planos.
Você é um caminho sereno,
que eu gostaria de percorrer.
Mas não depende de mim
não depende de você,
escolher.
Mas àquele que a tudo governa
o instrumento do todo,
construtor de realidades
Que por nós é nomeado
Tempo.

Sara.

* Música "Dia a dia, Lado a Lado" - Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci. Imagem: Jardins, Instituto Central de Ciências, Universidade de Brasília.

Soberana.

A gota que ferve na palma da mão.
O abraço apertado dançante.
O beijo, o cheiro
o sorriso gigante.
Quem é você
que chegou nesse instante?

Os olhos castanhos-verdes me fitam
e pedem de mim um apreço.
Eu reluto, mas me entrego
pois permaneço.

O laço que prende
a obrigação que chama
o meio sorriso de canto presente.

Um nós abrupto,
ininterrupto
desconcertante

Houve um atropelamento,
mas estou gostando deste asfalto.
Eu ganhei um beijo no asfalto*

Eu tenho uma mala comigo
Ela é pesada
Nada impede que não a machuque.

Confusão é uma palavra presente.
Desconcerto, cuidado, carinho,
preocupação.
Mas e se?
Se ela voltar?
Se ele voltar?
Você machucará?
Não há respostas prontas
para futuros prováveis.
Mas pode haver?
O que fazer?

Acalma, apressa, aperta o passo.
Ela acalma a minha pressa?*
Ela apressa a minha calma.

Sara.

*Livro: "O Beijo no Asfalto", Nelson Rodrigues.
*Música: "Provável Canção de Amor para Estimada Natália", Banda Mulamba.